CONVERSINHA: YOLA

SUPORTE WOR

Matéria por Lau Ferreira

Depois da estreia com um papo breve, informal e descontraído com os meninos do Primitive Soul, a coluna Conversinha traz para a sua segunda edição o DJ e produtor paulistano Diogo Siqueira, mais conhecido pelo nome de guerra YOLA.

Inspirado em artistas como Four Tet, Caribou, Bon Iver e Kaytranada, YOLA combina uma série de referências musicais que culminam em uma música eletrônica mais introspectiva, delicada, alternativa, com elementos orgânicos e étnicos, e de formatos mais abertos.

Seu primeiro EP, “Avalo”, foi lançado em janeiro de 2019 pela Primatas Records, contando com os vocais da africana Toshi, que já gravou com Black Coffee. Seu principal lançamento, entretanto, pintou em 2020, ao emplacar a música “Khulu” (uma homenagem a Nelson Mandela) na coletânea “Words Don’t Come Easy, vol. 7”, da conceituadíssima gravadora alemã Get Physical Music, ganhando suporte de ninguém menos que Dixon.

Agora, enquanto YOLA aguarda novos lançamentos — incluindo novidades pela Cocada Music —, ele tirou um tempinho pra nos responder curiosidades sobre temas mais abrangentes da sua vida e personalidade. 

WoR – De onde você está respondendo este questionário e o que estava fazendo agora?

YOLA: Estou no meu home studio aqui em São Paulo. Fiz minha prática de meditação e vim pro estúdio. Acabei de ligar o ventilador, são 8h AM e já está 25 graus.

WoR – E como tem passado por esse período de pandemia? O que mais mudou pra você? 

YOLA: Do ponto de vista de trabalho, continuou bem parecido, já que antes da pandemia eu não tocava ao vivo ainda, estava mais focado no estúdio e tals, então mudou pouco.

Mas, acho que o principal é esse sentimento de tristeza e perda constante, são notícias muito tristes todos os dias… 

WoR – O nome do seu projeto é inspirado na clássica banda indie Yo La Tengo. Sabemos que você é muito fã de bandas como Radiohead e Sigur Rós também. Dá pra dizer que o Yola é um menino indie que caiu na música eletrônica?

YOLA: Rs, sou muito mente aberta pra música, tive banda a vida inteira, gosto de música… Quando era mais novo estudei por um tempo violão popular e tal. A música eletrônica veio depois de um tempo parado, e da vontade de voltar a fazer o que mais amo. Mas pode ser sim, vim dessa cena indie e acabei me apaixonando por produções eletrônicas e todo esse universo. Acho que essa questão de gênero musical serve mais pra playlists, sites de venda de música, etc. Pra mim, música é emoção, sentimento, arte… E tudo isso independe de qualquer rótulo.

WoR – E agora, que tipo de música você mais tem escutado ultimamente?

YOLA: O último álbum do Barker, “Utility”, o último do Vegyn, “Like a Good Old Friend”, o EP do Tom VR, “Fast Track to Bliss”, o último do Justin Bieber, “Justice”, Adrianne Lenker, Big Thief… E mais outros tantos…

WoR – Da onde você tira inspiração para compor?

YOLA: Vem do dia a dia, músicas que escuto, conversas, uma caminhada na rua, artes no geral. Conhecer novos lugares, experiências boas ou ruins, etc. Acho que a inspiração é uma soma de tudo que vivemos ao longo dos dias e da vida. E por sermos músicos, tentamos externar isso em forma de música.

WoR – E como é sua rotina, esse seu dia a dia?

YOLA: Acordo entre 6h, 6h30, tomo café da manhã, dou uns beijos de bom dia na Vitória, minha vira lata, subo e faço minha prática de meditação. Umas 8h30, sento no estúdio e tento (às vezes sem sucesso) ficar até a hora do almoço. Almoço umas 12h, cafézinho e tal, mais uns beijos na minha cachorrinha e volto pro estúdio, onde tento (às vezes sem sucesso) ficar até a noite. O que não muda é que todo o dia estou no estúdio, produzindo, mixando, estudando…

WoR – Você tem algum hobbie? O que mais curte fazer quando não está envolvido com o trabalho?

YOLA: Gosto muito de jogar futebol, e às vezes me arrisco na cozinha. Ah, gosto de ver uns seriados também, mas demoro muito pra conseguir terminar cada temporada.

WoR – Se não trabalhasse com música, que carreira seguiria?

YOLA: Puts, na verdade ainda não vivo da música, nunca vivi. Ainda é um sonho e uma meta de vida, é o que me move. Então, ainda pego uns trabalhos de design.

Mas se fosse pra escolher uma carreira, se não fosse como músico, certamente seria envolvido com música, envolvido nesse universo. Não consigo me enxergar em outra coisa.

WoR – É real que você chegou a morar num templo budista tibetano? Conta melhor pra gente essa história!

YOLA: Morei sim! Ainda sou voluntário e participo das práticas do templo (na pandemia o templo está fechado desde fevereiro de 2020, para quem não mora lá), então tenho feito as práticas aqui em casa e acompanhado os ensinamentos online.

Morar no templo, estudar, ter um professor, fazer a prática de meditação, isso tudo mudou a minha vida e mudou a maneira como eu olho pro mundo, como me relaciono com ele e com todas outras pessoas. A sensação que tive quando fiz meu primeiro retiro no templo foi que estava voltando pra casa. Li um livro sobre o budismo em 2008 e fui atrás de conhecer pessoalmente, acabei caindo no templo e de lá não sai mais. Esse templo faz parte de uma organização que se chama Chagdud Gonpa, e foi fundada por um mestre tibetano que fugiu do Tibete com a invasão chinesa em 1950, e no fim da sua vida veio para o Brasil, em Três Coroas/RS e posteriormente SP.

Quem quiser conhecer mais sobre o templo, vou deixar o site, fica em Cotia, a uns 30, 40 minutos de São Paulo — na pandemia está fechado para visitação, mas no site você consegue conhecer mais sobre toda a história e acessar as palestras no YouTube também. 

WoR – Como foi a sua infância e juventude? O que você mais gostava de fazer? Quais foram os desenhos, filmes, músicas, eventos que moldaram o seu caráter?

YOLA: Minha mãe falou que eu ficava tocando guitarra na vassoura e fazendo show na sala de casa. Esse amor por música herdei de família, meus dois avós tocavam violão. Sempre gostei muito de esporte também, futebol, skate (até saí na revista Veja andando de skate com nove anos, o título era “Crianças Radicais” rs..). 

Desenho e filmes eu sempre fui meio ruim kkk. Gostava muito de ficar na rua. Mas lembro de alguns que marcaram: Doug, Scooby Doo, Caverna do Dragão…

WoR – Fora da música, quem são seus artistas favoritos?

YOLA: Não sou um grande conhecedor, mas alguns que conheci eu curti muito.

Um fotógrafo de Gana que se chama Michael Aboya, ele é sensacional!!!

Meu amigo Gabriel Rolim tem um trabalho incrível!

Gosto MUITO do trabalho do Loïc Koutana (lhommestatue), acho ele incrível!

Esses tempos conheci o trabalho de uma artista que se chama Sthéphanie Mascara, ela é performer e filmmaker, incrível também! P.S.: devemos fazer algo juntos em breve 🙂

Yayoi Kusama, Mark Rothko, Julio Le Parc, Basquiat, etc.

WoR – Você curte viajar? Quais os lugares mais incríveis que já visitou?

YOLA: Gosto muito. O templo em Três Coroas/RS… Já fui pro Nordeste e é um paraíso. Fui pra um lugar na montanha em Minas Gerais e é demais também!

Tive a oportunidade de ir pra Europa, gostei muito de Budapeste, Barcelona, Roma…

WoR – Como é sua relação com o Brasil e com São Paulo? Pretende seguir morando aí ou tem planos de migrar para algum outro canto do mundo?

YOLA: Humm, eu acho o Brasil sensacional, tem lugares incríveis e uma vida seria pouco pra poder conhecer tudo. Gosto de São Paulo também, esse lance de ter tudo de tudo a toda hora é demais! Por outro lado, a sensação de que o tempo passa voando, que todo mundo está correndo contra o tempo, a individualidade de cidade grande, a ansiedade e o trânsito, às vezes dão uma sufocada. Tenho planos de mudar, ainda não sei como vai ser, tudo depende de muita coisa.

WoR – Como você imagina o Brasil e o mundo quando esse pesadelo da pandemia, enfim, for coisa do passado?

YOLA: Difícil falar pois tem vários pontos de vista — profissional, mercado, pessoal, etc. Do ponto de vista do mercado da música, acho que o pós-pandemia vai aquecer os mercados regionais das cidades e também do país, talvez possa haver uma maior renovação e mais oportunidades para novos artistas. Com o câmbio muito alto, acho que a valorização do artista local vai ser maior. É difícil… O mercado do entretenimento é um dos que mais sofrem, se não for o que mais foi afetado.

E sobre o mundo em si, vou colocar o que li de uma monja que chama Jetsunma Tenzin Palmo, quando perguntaram pra ela sobre “quando a pandemia passar”:

“O ser humano é um aluno muito lento. A Europa teve duas grandes guerras, muitos jovens morreram. Disseram que tinham aprendido, mas depois de uma [guerra], logo procuraram outra. O problema é que as pessoas que estão no topo é que tomam as decisões. As multinacionais, grandes organizações. Eles não querem mudar. Então é muito difícil imaginar uma mudança em uma escala global. Até porque tem muita gente querendo voltar para a ‘vida normal’, e não se deu conta que aquela normalidade estava matando o planeta…”.

WoR – E o Yola? O que vai fazer a partir de então?

YOLA: Esse ano é o ano de lançar muita música nova. Vão sair singles, clipes, EPs, etc. Quero poder tocar e levar meu som pras pistas, criar bons momentos e lembranças, conhecer novos lugares, pessoas… Não vejo a hora!

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